ENTREVISTAS

Entrevista com Cris Diniz, gestore cultural e idealizadore do Festival Teatro Em Casa (Belo Horizonte/MG), realizada pela plataforma Zoom, de forma remota, no dia 25 de maio de 2021.

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ANA CAROLINA REZENDE

Como foi seu contato inicial do teatro em casa e de onde veio esse desejo, essa ideia de produzir um festival de teatro em casa?

CRIS DINIZ

Eu me interesso muito pelas potências, as potencialidades que existem quando a gente pensa a dramaturgia do espaço, que foi algo que se popularizou muito quando bombou o teatro pós-dramático. E aí entender que era um conceito específico, que a dramaturgia do espaço exige um diálogo, uma construção da encenação em diálogo, em oposição, em complementação, pensando a composição do espaço, e que esse espaço tem uma relação direta com a encenação, então, para que exista dramaturgia do espaço. E aí depois eu fui pensando, não me apeguei mais a esse conceito. Mas é algo que dialoga, de alguma maneira dialoga quando eu comecei a pensar a dramaturgia visual, sobre a visualidade da cena, sobre como o corpo também impõe a dramaturgia da cena, a gestualidade compõe a dramaturgia visual. Então a presença do corpo e a gestualidade desse corpo fazem parte da composição visual, dentro das autorias que eu trabalho. Meyerhold falava isso no início do século XX, mas tem pessoas mais recentes, como o Bob Wilson que fala disso. E aí depois quando chega no teatro performativo, da Josette Féral, ela fala dessas relações da performatividade em cena, do corpo performativo, e como os elementos visuais também compõem camadas pra construir sensações, construir signos. Isso já faz parte da composição. Aí já não é mais tanto a ideia de dramaturgia do espaço, mas tem uma camada relacionada a isso. E paralelo a isso, tem uma autora muito legal que é a professora da UFBA, e ela foi minha colega quando eu dei aula na UFSJ, que é a Ines Linke. Ela morou muito tempo aqui em Belo Horizonte, deu aula na UFOP também. Tem um artigo dela que ela fala da cenografia contemporânea. Ela faz um paralelo entre a cenografia contemporânea e a instalação das artes visuais, e essa cenografia um pouco mais... que não tem um pensamento estruturado por trás com elementos de decoração. Então uma coisa é você decorar e outra coisa é você pensar a composição. E aí, tendo todo esse olhar, eu comecei a fazer alguns trabalhos, porque o microteatro ficou muito popular, chegou aqui através do La Movida. Mas um grupo que eu fazia parte, que eu ainda atuo junto, que é o Grupo Dos Dois, tinha algumas coisas de microteatro que a gente circulava fora do Brasil. E aí tinha esse cuidado de uma parte ser o que o espaço dizia e uma parte de coisas que a gente interferia no espaço, montava, estruturava, e aí eram outras camadas. Paralelo a isso, teve uns trabalhos aqui em BH, teve o trabalho eu acho que é Dama da Noite, do Carloman Bonfim, teve um trabalho da Ludmilla Ramalho, teve um trabalho do Cláudio, que é do Luna Lunera, dirigiu com a Raquel e com o... esqueci o nome do outro artista, que tinham essas relações. E aí eu enxerguei, nesse espaço, uma sobreposição de camadas muito interessante, que juntava tudo isso que eu estou falando e ainda colocava a camada do afeto muito evidente, porque quando você entra na casa de alguém, no espaço de alguém, quando você abre a sua casa, a camada do afeto está ali de alguma forma, seja pra você negar, pra ter uma atitude mais ríspida, ou seja pra acolher. Mas de qualquer forma, existe essa outra camada inegável de quando você entra no espaço de outra pessoa. E aí juntando tudo isso eu falei “nossa, muito legal!”. E é muito diferente você ter interferências no espaço pra construir uma dramaturgia visual e o espaço já estar lá. E quando é a casa de alguém, existe o acúmulo da pessoa. Então, se eu frequento a casa - a casa não é minha, mas eu frequento – aquele espaço onde eu sempre vou tomar um café, num cantinho daquela casa daquela pessoa que eu tenho algum vínculo, aquele cantinho tem um outro significado pra mim. Então quando o artista vai fazer uma cena lá, neste espaço, ela tem uma camada que nem o artista sabe, mas que ela significa algo pra mim. Então, estar no espaço da casa de alguém é incluir camadas que nem sempre quem está atuando sabe que existe aquela camada. Só quem frequenta a casa, os dones da casa que habitam, que vivem lá que sabem. E aí eu falei assim, “gente, é muito interessante”. Porque você passa a construir, mesmo que você não queira, outras narrativas que você não tem controle. E isso é muito legal. Desde que exista um pensamento por trás, né, não seja um espetáculo que eu simplesmente forcei para ele encaixar ali. E quando eu forço também é visível. E aí no meio disso tudo, eu já estava querendo fazer um festival, porque onde que essa potencialidade circula? É muito difícil, pelo número de público. Então, às vezes você vai levar quatro ou cinco pessoas pra vir pro festival pra atingir um público de sessenta pessoas... Pode existir, mas aí eu vou ter que ter outros espetáculos que vai caber quinhentas, seiscentas pessoas pra compensar. E aí eu fiquei pensando assim. Pôxa, mas é tão interessante e isso atravessa tão diretamente na tal da formação de público que a gente tanto fala no teatro, que você fala assim, se é uma casa... E aí, paralelo a isso, eu já estava com esse interesse, eu fui vendo alguns espetáculos. O “Mata Rasteira” que estreou, eu vi a cena curta, eu falei “puta, é muito massa!”. Eu conversei muito porque eu vi várias camadas. E aí o Gabriel e o Rodrigo já estavam pensando essas camadas e então foi uma conversa super legal. E aí depois quando estreou o trabalho, estreou no palco, mas com a ideia de fazer nos quintais. Eles falaram assim, eu quero poder, se eu quiser apresentar ali no quintal, num beco, em algum lugar ali na favela eu posso. O espetáculo vai circular. O espetáculo não é dependente. Aí no caso deles tem essa outra camada que é o pensamento da facilidade de circulação, numa estrutura que lembra um pouco contação de história. E aí eu fiquei pensando assim, bom, tem tantas possibilidades... Aí eu comecei a enxergar as várias... Comecei a criar na minha cabeça pequenas divisões de possibilidades de teatro em casa. Porque tem umas que são feitas praquela casa e só pode acontecer naquela casa, tem outras que precisam existir vários cômodos pra que o público circule, tem outras que não, que é em um cômodo só. Tem umas que o público tem que ficar em um espaço, num sofá, numa mesa porque é a relação de casa. Tem outros que o público faz uma meia lua, faz uma outra relação. Então, eu fui entendendo essas várias potencialidades. E aí, no Chile, tinha um festival assim que era num bairro e que existia há oito anos. Aí eu falei, porra, eu já estava querendo fazer isso, então já existe, já tem gente fazendo isso. E aí na hora que eu comecei a pesquisar eu descobri que tinham outros. E aí, por acaso, eu descobri que tinha um em Burkina Faso, deve ter 25 anos atualmente. E aí eu falei, puta, porque na hora que você fala de casa, de coabitar a casa, você traz outras relações de construção de público mesmo. O público que recebe o artista que apresenta na casa, pra sempre aquele espaço vai ter sido modificado de alguma forma. É uma memória de algo, é um marco de algo que aconteceu na casa, seja uma festa que foi muito legal ou seja um espetáculo. E aí quando eu fiz, eu quis fazer essa outra camada. Então, não era na casa das pessoas que criaram os trabalhos. Eu abri um edital pra quem quisesse receber, inscrevesse sua casa. Então todos os trabalhos que foram apresentados não foram criados para as casas onde foram apresentados, mas habitaram um dia, dois dias, depende do trabalho, do tanto que precisa habitar no espaço, e foi incrível. E aí superou muito as minhas expectativas.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Essa recepção, das pessoas que se inscreveram pra receber os espetáculos em casa, você tem uma noção da dimensão? Foram mais artistas, pessoas mais acostumadas a frequentar teatro? Ou foi um público mais diverso que decidiu abrir a casa para receber as peças?

CRIS DINIZ

São pessoas que tem contato porque acaba sendo a nossa rede, né? Pra quem a gente divulgou, não chegou em pessoas que nunca frequentam o teatro e não tem absolutamente nenhuma... Até porque a forma como a gente fez o edital foi um pouco complicada. A gente falou pra filmar trechos da casa porque nossa ideia era pensar qual espetáculo seria legal em qual casa. Mas a pessoa ter que filmar a casa dela pra talvez receber um trabalho, pra se inscrever, pra fazer upload do vídeo, pra responder um formulário... A gente falou, é, aqui a gente errou. Não é assim. O festival tem que estar já muito grande, bombando muito para as pessoas quererem fazer isso. E ainda era a primeira edição. E acho que ainda não está nesse momento. Mas nem todo mundo era do teatro, tinham pessoas que eram da educação, porque uma das organizadoras faz um trabalho de leitura na biblioteca da FAE. Ela faz pedagogia. Então teve um alcance de pessoas que não são diretamente vinculadas ao teatro, mas que tem alguma relação com literatura, com leitura. Tem algum vínculo com a produção artística, ou com a fruição, ou com a formação de público, no caso formação de público para biblioteca, para leitura. E foi assim. Foi o número exato de inscrição. Teve umas duas ou três que era na região metropolitana de Belo Horizonte, mas aí era um pouco complicado o deslocamento. Teve uma que ia ter, que era em Contagem, no Eldorado, mas acabou que não rolou. Mas foi isso assim. Foram várias experiências, experiências que o teatro aconteceu na garagem, experiências que aconteceu na casa inteira, dentro dos quartos e banheiros, lá dentro. Mas a maioria já tinha algum vínculo. Passa a existir outras camadas. Teve a casa da Ana Régis, que foram dois trabalhos. E aí o cômodo que a gente escolheu para apresentar é o mesmo cômodo onde ela criou o espetáculo dela. Então, ela ver espetáculo no lugar onde pra ela, até então, era só espaço de ensaio, se tornar um espaço de apresentação, pra ela tem outras camadas. E um dos trabalhos que se apresentou tem uma relação direta com o trabalho dela, de abuso, com a mesma temática. Pra ela ver um outro trabalho ali, existem camadas que foram acessadas nela, na casa dela vendo este trabalho lá, que eu não consigo atingir. Mas que eu vejo que existiam nela. Então me interessa muito essas outras potencialidades que, às vezes, são subjetivas, mas que ao mesmo tempo você consegue ver que existe. Mas ainda não é tão geral. Mas depende muito do lugar. Eu acredito que tem muita potencialidade, sabe. Eu fico pensando, por exemplo, será que escolhe um bairro e faz sempre nesse mesmo bairro? Porque aí as pessoas vão frequentar umas as casas das outras e aí isso também gera mais vínculo entre a vizinhança e o momento do festival. Ou não, espalha pela cidade pra atingir públicos? Tem muita coisa que a gente fica pensando sobre o que pode ser o teatro em casa. E teve gente que frequentou, mas não frequenta teatro. Mas frequentou porque era na casa de uma amiga.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Eu ia te perguntar isso, sobre o público. Como vocês organizaram no festival? O anfitrião chamava os seus conhecidos, vocês vendiam ingressos, eram pessoas aleatórias? Como foi?

CRIS DINIZ

Era misturado. Teve público do trabalho, teve público - aí dependia da casa - das pessoas que são próximas, que frequentam a casa e teve um pouco do festival. A gente abriu, tem uma plataforma que chama Let's Events, que é tipo o Sympla, essas, só que ela estava começando. E aí a gente tem contato de quem criou a plataforma. E aí a gente conseguiu ter uma página do festival dentro da Let's Events. Então a gente não precisou abrir uma página. E lá dentro tinha tudo organizado, a programação, tirar ingresso. Não é igual é no Sympla que tem que ir, entrar, tirar o ingresso, e aí você volta lá atrás, volta pra página do evento. A gente deixou tudo muito facilitado pra ter o mínimo de clique possível. Aí a gente divulgava essa página. Lá na hora também teve gente que comprou com dinheiro e tal, só que pra facilitar nossa vida, a gente ficava com o celular, com as coisas, e a gente comprava no Let's Events na hora pra pessoa, tinha dinheiro e dava troco. Só pra facilitar nossa vida, pra contabilidade, pro borderô. Mas os trabalhos que mais tiveram público foram os trabalhos onde a pessoa da casa convidou mais gente. Foram os que mais tiveram. Então, a gente entendeu que é muito importante quem está cedendo a casa, não seja só ceder. Mas queira receber o trabalho, queira receber pessoas. Isso faz muita diferença.

 

ANA CAROLINA REZENDE

E essa micro comunidade que acaba se formando ali na casa da pessoa, no caso de vocês então uma comunidade mista – de amigos do anfitrião, de pessoas aleatórias que compraram porventura o ingresso. Você cria ali uma micro comunidade que está se relacionando com o espetáculo e com a casa. Como você vê a reverberação desse encontro entre desconhecidos e conhecidos num ambiente que é familiar para alguns e não tão familiar para outros?

 

CRIS DINIZ

Pra mim, tudo isso faz parte de um ato performático que eu estou propondo. Então, enquanto festival, proponho um ato performático que interfere no cotidiano das pessoas. Porque é um espetáculo que está acontecendo, algumas pessoas vão ficar lá na casa porque são próximas das pessoas e vão aproveitar pra beber uma cerveja, pra ficar mais tarde. A gente receber as pessoas com um lanche já gera essa camada do afeto, do acolhimento quando a pessoa chega. Então tudo aquilo que eu estava falando da instalação, da cenografia contemporânea, dessas várias camadas da dramaturgia visual, que é claro que você tem outras camadas. Na hora em que você vê um pão de queijo, isso gera algo em você. Isso é uma relação direta da dramaturgia visual que está sendo construída ali. E aí eu entendo tudo isso que gera e tal, pra mim, como artista, porque eu tenho um outro olhar em relação à gestão. Eu acho que a arte de quem faz gestão é a ação desenvolvida. Então o teatro em casa é uma obra de arte minha e das pessoas que organizam, não só minha. Uma obra de arte coletiva que precisa, como ferramenta, da obra de arte de outras pessoas que criam teatro. Então é um encontro de várias coisas que reverbera em uma ação estética. E é uma ação estética. Essa pergunta que você me faz a minha resposta é um ato performativo, é uma escolha estética de interferência no cotidiano dessas pessoas. E aí reverbera, reverbera. As pessoas saem para encontrar outras pessoas, ou ficam mais tempo. Tem pessoas que não eram da casa que... Teve uma vez que uma parte das pessoas que não eram da casa foram convidadas para ficar. Durante o espetáculo foram interagindo e acabaram ficando porque geraram um vínculo com alguém que nem conheciam e passaram a conhecer. E isso é uma ação estética. Então eu entendo tudo isso, toda essa reverberação é pensada. Assim como eu penso a dramaturgia do meu trabalho, repenso, mudo de ordem, o que vai no início, eu quero ter essa sensação, tem esse signo, existem esses conceitos que eu quero trabalhar, eu quero testar se isso vai funcionar. Eu entendo que tudo isso eu estou fazendo como um ato performático, como uma escolha estética minha como artista. No caso, através da gestão.

 

ANA CAROLINA REZENDE

O que você pensa que muda na circunstância de fazer teatro em casa para criação, independente de qual papel você está atuando no momento (gestore ou artiste)?

CRIS DINIZ

São duas coisas correlacionadas. Eu acho que fica mais evidente a camada do afeto e do cuidado, que são coisas que estão correlacionadas. Eu acho que é um lugar um pouco mais subjetivo, que a gente tem que fazer muito mais esforço se a gente está num palco italiano pra atingir essas camadas. Existem muitos elementos estéticos para que isso aconteça, seja você passar um café ao vivo e distribuir o café para o público no palco italiano, vai gerar algo. Mas é muito diferente de quando você faz isso na casa. Você está na cozinha, passa o café e compartilha o café ou assa o pão de queijo dentro da casa. Não só com o público, mas também com quem está criando. Eu sinto que são processos, muitas vezes, que atravessam a gente muito mais. Quando a gente está ensaiando, vai na casa da pessoa, as relações cotidianas interferem. Então, o afeto e o cuidado ficam mais evidentes. A coisa do profissionalismo, a pessoa tem que ser profissional, que às vezes é mais fácil enxergar e diminuir o lado humano quando a gente está num processo tradicional. Quando a gente vai pro lugar interno da casa é mais evidente que não está dissociado. Que é uma pessoa que está ali criando, que ela tem dias bons e dias ruins, isso acaba afetando mais, bem mais, muito mais, os ensaios, o dia a dia, o espetáculo. Os dias de espetáculo variam muito mais também, pelo público, por como a pessoa está. E aí eu acho que é isso. Pra gente manter, por exemplo, pensando em profissionalismo, uma qualidade de trabalho para o público, em respeito ao público que está indo assistir, é preciso que exista afeto e cuidados. Cuidar, cuidar-se, muito forte, para que o teatro em casa aconteça dentro da sua potencialidade, porque senão vai pro cotidiano e aí perde tudo.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Você acha que essa esfera que você trouxe, do afeto e do cuidado, de certa forma interfere numa transformação política... Num papel de transformação política do teatro?

CRIS DINIZ

Ah, muito mais, muito mais! Eu acho o teatro em casa, por um lado, e o teatro do oprimido, são dois caminhos que são mudanças mais reais. Agora depende se você vai, faz uma vez, acabou, nunca mais, não tem contato, já era. Não sei. Vai ser transformador, eu acho que mais até, porque vai ser na casa da pessoa e vai reverberar por muito mais tempo nela, do que ela ir em um espaço, assistir e voltar pra casa. Então eu entendo que as pessoas que assistiram, que frequentam aquela casa, quando voltarem na casa, em muitos momentos, vai acionar a memória do que existiu ali. Mas eu acho que é a transformação no micro, é uma transformação pontual. Não acho que uma temporada na casa de alguém vai transformar o bairro. Eu acho que precisam de mais ações em conjunto para que exista, talvez circular em mais casas, entender o contexto do bairro, mais pessoas do bairro participarem do trabalho. Aí eu acho que são outras camadas. Mas eu acho que existem mais ferramentas no teatro em casa, assim como no... São ferramentas diferentes, algumas são diferentes, outras são iguais! Mas eu acho que o teatro do oprimido e o teatro em casa tem mais ferramentas para transformações ali no micro do que o teatro. Você vai no cinema e assiste “Cidade de Deus”, volta. Quantas pessoas assistiram “Cidade de Deus” e não foi o filme “Cidade de Deus” que fez o Brasil ser menos violento. Então, eu acho que é diferente se você tem um espetáculo com essa temática acontecendo dentro da sua casa. Vai te afetar de outra forma.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Talvez isso se relacione com o impacto que o teatro em casa tem, mesmo que seja uma operação temporária, ali naquelas pessoas que estão compartilhando do momento do ato teatral. Esse impacto, que é muito real, apesar de ser na esfera do micro, você acha que esse impacto entre público e os artistas pode ser um indicador de que realmente funciona?

CRIS DINIZ

Acho que sim. Acho que tem coisas que são mais subjetivas, mudanças mais subjetivas que a gente não consegue pegar tão rápido, mas é muito diferente. Se você está na casa e existe uma cena sobre manter a cozinha limpa, mesmo que seja um momento de alívio cômico do trabalho, as pessoas que estão assistindo ali, muito dificilmente, a cena não vai impactar nem um pouquinho, nem um dia, nem que seja só no dia seguinte, o cuidado com manter a cozinha limpa. E quem são as pessoas ou quem é a pessoa responsável por manter a cozinha limpa? Quanto é compartilhado dessa ação? Então, o fato de ser ali na presença... Como se dá aquela casa se só tem uma pessoa que cuida da cozinha e na hora do trabalho existe um alívio cômico em relação a isso, sobre quem realmente... Se todas as pessoas habitam não deveriam ser todas as pessoas? Eu entendo que isso é muito diferente de você ver isso num palco e você ver isso na cozinha da própria casa. No mínimo, a pessoa vai sentir, quem nunca ajuda, quem nunca contribui, no mínimo, vai sentir vergonha de que não faz nada. Vai ficar ali... E as pessoas vão rir... Então eu acho que a pessoa que não faz nada talvez comece a lavar a louça depois do almoço. Já é uma transformação.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Da própria relação da pessoa com a casa, né. Seja a sua ou seja... Eu estou simbolicamente na casa da Ana, por exemplo, vendo aquilo, eu também faço uma relação com o ambiente íntimo que é o meu. Teve alguma dificuldade, alguma situação excêntrica, extrema, que vocês vivenciaram durante o primeiro festival? Algo assim que foi peculiar, que você não podia prever e, de repente, surpreendeu vocês? Em qualquer esfera, de público, de artista?

 

CRIS DINIZ

Eu acho que teve um acolhimento das pessoas muito maior, de quem recebe. Porque como a gente tem uma cultura mineira muito forte, a gente queria estar na casa da pessoa, mas não queria incomodar. Agora eu já entendi que isso é uma loucura! Porque eu vou interferir no cotidiano, como que eu não quero incomodar? Então, foi um pouco pra gente repensar isso, sabe. “Nossa, vou colocar aqui nesse cômodo que é a garagem...”. A Ana, por exemplo, quando a gente fez a visita e a Laís escolheu, ela escolheu um ambiente que era um quarto que dá pra garagem pra não atrapalhar o cotidiano da casa. Aí depois a Ana falou: “não, ela quis só aquele quarto, tudo bem, mas por mim eu queria que ocupasse a casa toda!”. Aí quando você vê isso, você diz, bom, eu preciso me repensar também. Porque se eu me proponho, eu tenho que ter uma conversa franca e honesta, de forma que a pessoa se sinta à vontade pra dizer que uma parte da casa dela não vai poder ser usada. E ela ter essa liberdade. Só que como era a primeira vez, a gente queria muito que desse certo, não queria que desse nenhum problema, a gente chegava, mineiramente... “Olha, não quero incomodar” e isso, isso. Aí a gente fazia o lanche todo, preparava, pra pessoa não se incomodar de fazer o lanche e receber as pessoas. Só que todo mundo fez lanche. Todo mundo se preparou pra receber. Então tinha muita comida, porque tinha a que a gente levava e a que as pessoas compravam. Tinha três vezes mais café, porque a gente fazia café e a pessoa fazia café. Tinha o bolo que a gente comprou e tinha o bolo que a pessoa comprou. Então, o que eu acho que precisa é isso, entender até onde a cultura mineira é realmente aberta pra gente fazer isso e ser muito potencializado pela nossa cultura, o teatro em casa. E aonde tem o lado da hipocrisia da cultura mineira de que eu não quero incomodar, eu não sei se a pessoa está realmente abrindo ou se ela está sendo educada. Mas pra fazer teatro em casa não dá pra ter essa dinâmica. As duas pessoas têm que ser transparentes e honestas. Senão, não dá. Eu acho que foi essa uma ficha que caiu. Assim não dá. Se eu ficar com medo de incomodar todo mundo o tempo inteiro, o teatro em casa não vai existir.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Não funciona, né. Eu lembro de uma... O INcômodos nasceu fora do contexto de festival, a gente mesmo abria um cadastro pela internet para que as pessoas interessadas em receber a gente nas suas casas pudessem falar. E a gente também caiu nesse mesmo erro, que você comentou de vocês, de pedir foto da casa e tal. A gente tem que saber antes como é a sala da pessoa pra adaptar... Hoje quando a gente abre cadastro, a gente não pede mais foto. A gente já entendeu que aonde a gente chegar vai ser a forma como a gente vai construir ali. A gente chega quarenta minutos antes e é isso. A gente não quer saber o que a pessoa tem, o que a pessoa não tem. Mas uma coisa que sempre esteve muito forte pra gente desde o início, pela característica da nossa cena, principalmente da minha que cria um caos no quarto da pessoa, é essa honestidade real. Eu sempre disse para as pessoas, “olha, o que eu posso mexer, onde eu posso abrir, que gaveta eu posso abrir, que gaveta eu não posso abrir?”. Porque tem isso de você entrar no banheiro da pessoa, ver de fato qual remédio ela toma, tem uma série de intimidades que são esgarçadas. A gente se preocupou desde o início com isso por uma... Me pegou muito a sua fala do afeto e do cuidado, porque eu entendia que eu estava na casa de alguém e não é um teatro, é a casa onde alguém vive, a casa que alguém habita. Então nossa preocupação de fazer um caos ali, mas depois devolver tudo limpinho, organizado, do jeito que a gente encontrou. E também as diferenças de recepção. A casa que se prepara pra receber o teatro, limpa, faz faxina, faz lanchinho, e a casa que você vai como se fosse realmente um amigo, que não tem a menor preocupação de maquiar nada, arrumar nada. Está sujo, está sujo. As roupas estão jogadas, estão jogadas. Essas situações diversas que você encontra quando você se dispõe a entrar na intimidade da casa de alguém. Só uma troca porque pra mim essas experiências foram muito impactantes. As mais impactantes se deram nesse lugar de como eu fui surpreendida com algo que eu não faria ou faria diferente. E como eu realmente tive que me abrir, mais do que como atriz, mas como pessoa, como ser humano, numa relação de alteridade, pra entender que eu estou ali ocupando um lugar que não é só meu.

 

CRIS DINIZ

É bem isso assim. Entender o que é o cuidado pra cada casa. E pra cada pessoa que está recebendo, o cuidado é diferente que eu tenho que ter quando chego lá. E saber entender isso, respeitar. É uma outra forma de pensar o teatro. Essas outras camadas, às vezes, elas são mais importantes do que, às vezes, até a encenação, dependendo do trabalho. Porque dependendo de como você chega, a estrutura te nega de uma forma que não vai existir trabalho.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Pra gente encerrar, eu queria que você pensasse um pouquinho alto junto comigo o que você acha que essa construção de levar o teatro pra dentro da casa das pessoas pode reverberar ou contribuir pro teatro como um todo.

 

CRIS DINIZ

Uma coisa que eu acho que vai potencializar que é achar um meio termo do que é os vínculos pessoais, o que é se humanizar e o que é se profissionalizar, sabe? Porque tem lugares que eu circulo com palco italiano que a profissionalização é tão extrema que, beleza, tudo funciona maravilhosamente bem. Mas, às vezes, eu prefiro ir para um festival, para um espetáculo, às vezes, numa cidade pequena, que tem menos estrutura, que a produção não está tão profissionalizada, mas as pessoas são tão legais, estar lá é tão gostoso, é tão acolhedor, que é muito mais próximo do que eu quero fazer da minha vida como artista do que a coisa mega profissional em uma cidade cosmopolita que tudo já está perfeito e maravilhosamente estruturado. Porque eu acho que se humanizar também é se abrir para os erros que existem. Somos pessoas com falhas. E essas falhas fazem parte da nossa humanidade. Se tiver afeto, se tiver carinho, se tiver cuidado, se tiver escuta, as coisas vão acontecer. Eu acho que se profissionalizar é buscar essas coisas, principalmente. Claro que chegar na hora, algumas coisas assim. Mas tem outras camadas que, às vezes, eu acho que ficam esquecidas. Quando a gente fala do teatro em casa, fica mais evidente ainda. Eu acho que essas camadas pra mim são tão importantes, ficam mais evidentes. Eu acho que uma das coisas que pode contribuir é isso assim, sabe? Humanizar o teatro, decolonizar. Entender que a nossa ideia de profissionalização é uma ideia externa à nossa, é uma ideia que vem de fora, é uma ideia eurocentrada, norte-americana de produtividade. Que a gente funciona de outro jeito. A nossa maneira de contemplar é outra. As pessoas contemplam comentando com quem está do lado. Não é em silêncio, olhando a paisagem do museu silencioso. É isso. E quando você está na casa da pessoa, essa humanidade está evidenciada. Não tem isso: “psiu, silêncio, você está no teatro!”. Você está na casa da pessoa! Eu acho que todos os aspectos, tanto artista, quanto produção, quanto público. Acho que a maior contribuição é isso. Entender o que é profissionalizar de verdade, que pra mim passa por humanizar-se, passa pelo afeto. Mais até do que esse conceito de profissional que a gente importa de fora e acha que isso é que é ser profissional.

 

ANA CAROLINA REZENDE

Nossa, Cris, muito obrigada! Vai valer demais da conta!